O relógio desperta. 6:00 da manhã.
Ela se levanta, ainda sonolenta, e vai ao banheiro. Se olha no espelho e vê o quão feio está seu corpo. Naquela noite de calor, o melhor era tirar logo toda a roupa e dormir vestida de céu. Foi o que fez.
Notava seus seios. Deus, estão caindo! O tempo e a gravidade são os inimigos da anatomia feminina. Ela se esforçava pra dar uma melhorada na sua situação: cremes, massagens, dietas. Mesmo assim, as coisas continuavam caminhando. Desconfiava que nada adiantaria, pois o que há de ser será. Artifícios como estes seriam apenas disfarces de sua verdadeira identidade. E nossa, ela fez isso toda a vida! Se comportou de maneira totalmente distinta, até aquele momento, em suas relações, trabalho, vida. Gostava de ser aquilo que as pessoas esperavam, e o problema era justamente este. Ela nunca era o que era.
Talvez por isso vivia só. Naquele momento, depois de anos de terapia para identificar o problema, ela o descobriu. Ser o que os outros esperam demanda ter um estoque enorme de máscaras, e mais uma vez, ela nunca era ela mesma. Assim, é claro, jamais encontraria a pessoa ideal. A mulher de seus sonhos. Uma companheira independente, de mesma idade e mesma posição social, que seja sincera e ame verdadeiramente. Para tê-la, deveria superar o maior obstáculo. Assumir sua opção. Isso era difícil, senão impossível para ela, que era importante em seu trabalho como mostrava ser. Uma lésbica ali levaria tudo às ruínas. Ela não teria chance mesmo.
6:07. Liga o chuveiro e deixa a água morna lavar o suor da noite. Cada gota percorre seu corpo, começando dos loiros cabelos, com as raízes já brancas, passando pelos seios, ventre, pé. A reflexão feita na frente do espelho a intriga. Lavando sua vagina, relembra de tantas noites de sexo feitas por interesses mais gerais, mas nunca por amor. Gostaria de sentir verdadeiramente o prazer. Até aquele momento, todos os orgasmos foram fingidos. Para compensar, mantinha escondido no fundo falso do armário uma coleção de dildos diversos.
6:20. Saindo do banho, percebe que jamais fora feliz. Até aquele momento tinha sido uma marionete de pessoas que só conhecia por nome, e a usava sempre para o lucro. Em recompensa, tinha sim uma vida confortável. Tinha colegas, saia frequentemente, mas estava exausta. Havia algo faltando, e não sabia o que era. Caminha para o closet, onde o costumeiro traje a aguarda. Ela o encara, e por fim percebe que ela tem o poder de mudar tudo. Chutar o pau da barraca e assumir sua face real. Identidade a gente constrói para apresentar, era o que um amigo de infância sempre dizia.
6:24. Após encarar todo este tempo o traje, notou que deveria agir logo. Ou mudar, ou se apressar. Tempo é dinheiro, e ela já estava relativamente atrasada. A agenda de hoje envolvia reunião de metas, encontro com dois clientes e apresentação da empresa a um grupo de investidores. Tudo era pra ser feito antes do almoço. Começou a se vestir.
6:56. Pronta pra sair, entra no carro e segue pra empresa. Tudo aquilo fica martelando na sua cabeça, até que o telefone toca. É a secretária, linda e jovem, repassando os últimos detalhes do primeiro compromisso. Só então ela volta pro “mundo” e segue em frente. Esquece tudo o que aconteceu, e vai se desempenhar, mais uma vez, como os outros esperam. Termina o dia na cama de um dos investidores, gemendo tão bem que poderia, se o corpo fosse mais belo, ser atriz pornográfica. Como os peitos estavam caindo, só restava viver como vivia. Lamenta, até hoje, não ser o que é. Mas não muda, pois se acomodou a uma vida que é mais dos outros do que dela. Ela escolheu assim. Saiba tu escolher bem, para não se lamentar depois.