Fotos da infância me fazem lembrar o quão feliz éramos, e nem percebíamos. Me lembro de um dos meus dias de infância: verão. Acordo, de cuequinha verde-água, na casa velha, e encontro papai na cozinha, preparando a dedeira. Como sempre, fico sério de manhã. Sento no sofá de dois lugares, ao lado o Guilherme, que já está de camisetinha e short. Ele sempre foi mais esperto que eu, mesmo sendo mais novo. Coisas de Guilherme Henrique. Vitor está na sala também. Começamos a assistir TV Colosso quando Wagner, aparece com o cheiro de um lado e o Pimpão de outro. Enquanto Piscila e Capaxão nos divertem, tomamos o leite quentinho, que o Normélio entregava pontualmente em casa. A mãe está la fora, pendurando as roupas, quando ouvimos o portão abrindo: vô Chico chegou! Vamos todos ao seu encontro, pedindo bênçãos, abraços e doces. Ele nos diverte, especialmente a mim. Troco de roupa, coloco a bota ortopédica e me preparo pra ir ver a madrinha. No caminho, o vô para pra conversar um pouquinho com o Seu Afonso, o Bié, o Carijó, Matema, Seu Vitinho e seu Jelo. A madrinha, na verdade, era madrinha só do Vitor, mas nos acostumamos a chamá-la assim. Ela é uma santa, aos meus olhos. Assumiu com garra o papel de rainha do lar, mesmo tendo convivido tão pouco tempo com a vó Antônia. Carinhosa e dedicada, a tia Lazinha sempre esteve na minha lista de ídolos e heróis. Assim também estava a Baduda, que neste momento dormia no quarto. A Dete também estava lá, conversando com a tia Lazinha. O vô leva a gente no quintal, onde chupamos jabuticaba e brincamos com o Bigode e com as galinhas. Com paciência ele virava pra mim e dizia “vai lá, Julinho! Eles vão chupar tudo!” Eu confesso que sempre fui molengão. O vô me chama pra passear e me leva na quitanda do Lazinho. Compramos doces e ganho soldados e índios de plástico. Quando voltamos, a madrinha está preparando o almoço. Batata frita! Vou devagarzinho e pego uma. Achando que ninguém está me vendo, pego outra. Então vem o tio Márcio ficar bravo comigo. Com o medo que tinha dele, começo a chorar e vou pra um canto. A Baduda, já de pé, assiste televisão. Descubro uns papéis e caneta, e começo a escrever. Brinco de médico em silêncio, com medo de falar algo e o tio Márcio aparecer pra me castigar. Ainda com lágrimas nos olhos, vou almoçar. A tia Lazinha vem me confortar. Após almoçar, o vô dá o doce pra gente. A mãe chega lá, após o pai ir trabalhar. Ela quer nos levar pra casa, mas resolvo tirar a sesta. Deito do lado do vô e durmo sem preocupações. Que vida bela! Assim que acordo, encontro Guilherme, que descobre uns óculos da Baduda. Resolvemos experimentar. Baduda corre, pega a câmera e tira a foto da gente se divertindo. O vô e a tia Lazinha dão risadas. Não sei quem foi mais feliz: o vô ou eu. Chega a hora da Tia Lazinha ir pra banda, então a mãe nos leva embora. O vô vai junto. A gente assiste televisão, eu deitado no colo dele. Ele vai embora, e o Vitor chama a gente pra brincar. Brincamos até que a mãe manda a gente tomar banho. Primeiro vai o Vítor. Depois, o Guilherme e o Wagner. Por fim, vou eu. Sentamos no sofá enquanto a mãe prepara o jantar. Assistimos TV Cruj. O jantar fica pronto. Jantamos arroz, abóbora, carne moída, jiló e salada de almeirão. A tia Cléa aparece. Depois chega a Dete. Elas conversam na sala, assistindo a novela, e a gente tentando entender o que elas falam e comendo arroz doce que a mãe tinha feito escondido. A novela acaba, elas vão embora e a gente se prepara pra dormir. Tomamos a dedeira, escovamos os dentes e vamos dormir. Deito, durmo e sonho com brinquedos e jogos que eram vendidos. Achava que seria legal, e desconhecia o quão feliz era. Não posso reclamar da minha infância. Tive tudo o que uma criança precisava: espaço, carinho e cuidado. Sinto falta desta vida simples e humilde que tinhamos. Sortuda a criança que, hoje em dia, cresce como eu e meus irmãos crescemos. Ficam as boas lembranças de dias que demoravam passar. Fica também a memória do vô Chico, a quem dedico este texto. Sei que um dia ainda reviveremos todos estes momentos, juntos ao grande Senhor. Enquanto tal dia não chega, guardo comigo seu sorriso e a sua voz em meu coração, gritando “vai lá, Julinho!” Esta é a fonte que me motiva a superar, vencer. Obrigado vô! Te amo e amo a todos que fizeram da minha infância única e naturalmente bela.

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