Uma tarde típica de verão mineiro se desenrolava quando Fábio escrevia em seu diário um desabafo. Ele mantinha sempre a rotina de colocar no papel as suas expectativas, medos e fracassos, e desta vez rabiscava algo sobre o amor. Como se sentia isolado, aos 19 anos, por nunca ter se apaixonado!
O ventilador se esforçava em refrescar o quarto do garoto, lançando sobre ele brisas que lhe acariciavam o corpo -um tanto magro- e lançavam seus castanhos cabelos para o lado, de uma forma incomodante. Para contornar a situação, Fábio coloca uma touca de lã, e se encara no espelho anexo à escrivaninha. Observa seu rosto,a barba por fazer, os olhos negros e conclui que estaria melhor e mais feliz se estivesse amando.
Fábio era um pouco diferente das pessoas que ele tomava por referência quando o quesito era amar. Odiava admitir isso, mas tinha consciência de que apenas seria completo se passasse a aceitar a verdadeira essência. Os apaixonados que ele conhecia possuem experiências, revelando que o amor demora a acontecer. É que para ele o amor é uma fonte inesgotável, é algo para toda a vida. A diferença mais marcante é que todos os tais casais são heterossexuais. Já Fábio é homossexual e não tem dúvidas disso.
“Amar deve ser mágico!” - ele escreve. “É a máxima expressão da afeição especial que se sente por alguém. E eu não conheço isso. Como gostaria de conhecer o amor! Idealizo algumas cenas, situações, mas não consigo pensar no meu parceiro ideal. É melhor não idealizar isso porque posso deixar passar chances preciosas por estar tão seletivo. Observo as pessoas que se amam, e tenho carência de todo o carinho que eles compartilham. Quem me dera se neste exato momento eu tivesse meu amor aqui, comigo, me ajudando a escrever uma história romântica e tão imoral como a nossa! Se já é difícil assumir quem eu sou, quem dirá ter um parceiro! Mas este é o preço que quero pagar. Primo por minha felicidade, mesmo que para isso eu precise deixar para trás amizades e reputação. Mas o que desejo, acima de tudo, é que o amor aconteça logo para mim. O que vier depois é lucro, e, àqueles que não me aprovem como eu sou, tomo a liberdade de plagiar Emmet Honeycutt. Fodam-se todos!”
Ao terminar de escrever o texto, Fábio se sentiu muito confiante e determinado a fazer o que escreveu: ser feliz. Talvez tenha sido o calor e seus efeitos etéreos que deram o impulso final para ele. Saiu do quarto e foi até a sala de estar. Sua mãe estava assistindo TV. Ele sentou-se ao lado dela e pediu atenção:
-Mãe, preciso conversar com a senhora!;
-Tudo bem filho. Sobre o que você quer conversar?;
-Ai mãe, é difícil falar assim, então vou direto ao assunto.;
-Então fale!;
-Mãe, eu sou gay.
A última frase soou solene na sala, sendo capaz de fazer um segundo parecer uma eternidade. A mãe de Fábio olhou para o garoto com uma cara indiferente, abraçou-o e apenas disse:
-Meu filho, eu te amo de qualquer jeito. Obrigada por contar. - e ele respondeu, contente:
-Obrigado por me entender, mãe. Agora sim vou conseguir ser feliz.
Após Fábio sair da sala, um fio de lágrimas saiu dos olhos de sua mãe. Ela apenas voltou-se ao céu e agradeceu por seu filho ter ao menos encontrado sua essência.
Ele voltou ao quarto e escreveu em seu diário: “Belos são os dias que se seguem à expressão de nossa natureza, nossa verdade. Porém mais feliz é aquele que é aceito pelos que o amam como ele é.” E ele descobre que ama.

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